Iconografia da Virgem – parte 2

Imagem: Albrecht Dürer, Virgem sentada no crescente lunar. Frontispício da História da Vida da Virgem, 1510 (1500-5), 13×8 cm, Connecticut College Print Collection, e à direita, de autoria de um dos irmãos Wierix, sem título, 2ª metade do séc. XVI, gravura em metal, 10 x 7 cm, Antuérpia. Imagem da Connecticut College Print Collection em http://www.conncoll.edu/visual/

Por volta de 1503, encontramos alguns exemplos de representação que podem ser associados à atual iconografia da Imaculada que conhecemos hoje: uma gravura de Dürer para o Frontispício da sua História da Vida da Virgem (1500-1505), onde a Virgem é retratada como uma mulher com um menino nos braços sentada sobre um crescente lunar e acima de sua cabeça uma coroa formada de doze estrelas; uma gravura sem título dos Irmãos Wierix (2ª metade do séc. XVI – provavelmente uma cópia de um trabalho de Dürer) mostrando a Virgem como uma mulher de pé sobre um crescente lunar com um menino no braço direito; e uma iluminura de Antoine Vérard para o livro de horas Horæ Beatæ Virginis Marie Sarum (1505) onde a Virgem é representada mais uma vez como uma mulher de pé, com um menino no braço direito, só que desta vez temos a adição de um lírio branco em sua mão esquerda.

Imagem: À esquerda, A Virgem de Guadalupe, c. 1531, óleo e têmpera sobre tecido, Santuário da Virgem de Guadalupe, Cidade do México, e à direita, Nuestra Señora de los Milagros (La Conquistadora), madeira policromada e dourada, Museo de San Ignacio, Paraguay.

Ao longo do século XVI, se consolida a representação da Virgem sobre o crescente lunar que chega à América na invocação da Virgem de Guadalupe, cuja primeira representação conhecida data de 1531. Na Europa a representação da Virgem associada ao crescente lunar parece ter se difundido largamente através dos livros de horas – livros de oração utilizados por boa parte da comunidade letrada européia. Note-se que até então este conjunto de atributos foi associado com a Virgem, e não especificamente com a Imaculada. Mas é justamente entre os séculos XVI e XVII que aparecem as primeiras representações da Imaculada Concepção como a reconhecemos hoje. Ao crescente lunar, foi adicionada a serpente que por vezes aparece mordendo uma maçã, numa clara alusão à expulsão de Adão e Eva do paraíso.

Embora a associação da Virgem com a lua tenha sido herdada da Vênus romana, ela também aparece no Cântico dos Cânticos e na Litania. Seu aparecimento sob os pés da Virgem, assim como a adição da coroa de doze estrelas e da serpente – que a partir do final do século XVI freqüentemente aparece sob os pés da Imaculada – ao seu repertório de atributos se consolidou através da associação da invocação da Imaculada Concepção com a mulher do Apocalipse.

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Iconografia da Virgem – parte 1

A iconografia da Virgem, e sobretudo da Imaculada, é uma das mais ricas dentro da tradição católica em termos de atributos, graças às várias associações que foram sendo feitas à invocação ao longo dos séculos. Datando do ano de 1503 encontramos uma outra representação da Virgem que a associa ao Cântico do Cânticos no livro de Horas da Virgem ‘Heures a l’usage de Rome’.9 Nesta ilustração aparece uma representação da Virgem como uma mulher jovem de mãos postas, cercada de elementos que flutuam ao seu redor e vêm acompanhados de tarjas com dizeres retirados do Cântico dos Cânticos.

Abaixo de uma representação em busto do Pantocrator encontramos os dizeres: Tota pulchra es amica mia et macula non est in te (toda bela és, amiga minha, e não há macula em ti). Logo abaixo, encontramos uma série de atributos acompanhados de dizeres retirados de traduções latinas de vários livros bíblicos do Antigo Testamento – Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Sabedoria, Salmos e Isaías – como também de Ave Maris Stella, um hino em louvor à virgem de origem ignorada e que data pelo menos do séc. IX e da Litania da Santíssima Virgem Maria, aprovada em 1587 pelo papa Pio V, mas utilizada desde a Idade Média.

A seguir as interpretações sobre a gravura deste artigo:

• o sol e a lua => electa ut sol; pulchra ut luna (brilhante como o sol, bela como a lua), Cânticos 6:9;
• porta do céu(Porta coeli), Ave Maris Stella, hino medieval em louvor à Virgem, c. séc. IX;

• cedro do Líbano (sicut cedrus exaltata), Eclesiastes 24:17;

• roseiral (plantatio rosae), Eclesiastes 24:18;

• poço de água viva (puteus aquarum viventium), Cânticos 4:15;

• broto de Jessé florido (virga Iesse floriut), Isahia 11:1. ‘E sairá um broto da raíz de Jessé e de sua raíz surgirá uma flor’ (Et egredietur virga de radice Iesse et flos de radice eius ascendet). Jessé era pai de David e, portanto, dá origem aos vários ancestrais de Cristo. A flor a que se refere o versículo, pode ser interpretada como a Virgem com seu filho divino.

• jardim cercado (hortus conclusus), Cânticos, 4:12;

• estrela do mar (stella maris), Ave Maris Stella;

• lírio entre espinhos (sicut lilium inter spinas), Cânticos 2:2;

• oliveira (oliva speciosa), Eclesiastes 24:19;

• torre de Davi (turris davidica cum propugnaculis), Litania e Cânticos (turris David) 4:4;

• espelho sem mácula (speculum sine macula); Sabedoria 7:26;

• fonte dos jardins (fons [h]ortorum), Cânticos 4:15;

• cidade de Deus (civitas Dei) Salmo 86:

Primeira representação da Imaculada Concepção

A primeira representação da concepção de Maria personificada em uma mulher aparece em uma obra de Carlo Crivelli, de 1492, hoje no the National Gallery em Londres. Nela se pode observar uma mulher com as mãos postas e sobre ela, dois anjos erguem uma faixa onde se lê: Ut in mente Dei ab initio concepta fui ita facta sum (desta maneira na mente de Deus desde o início fui concebida e assim fui feita). Na parte superior da composição, aparece Deus olhando para baixo, contemplando sua criação.

A direita da mulher aparecem uma maçã e uma abóbora, simbolizando a ressurreição (abóbora) como antídoto contra a morte e o mal (maçã); à sua esquerda cinco peras e um pêssego: o número cinco alude às cinco chagas de Cristo, a pêra alude ao Cristo encarnado e seu amor pela humanidade, e o pêssego simboliza o fruto da salvação. Também à sua esquerda, logo abaixo das peras e do pêssego, há um jarro transparente com lírios brancos, simbolizando a pureza da virgem.
O lírio é particularmente associado à Imaculada Concepção e a referência vem da canção de Salomão (2:1): Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales. A direita da mulher, uma outra jarra, de aparência mais rústica, com rosas – um atributo tradicional da Virgem, herdado da Vênus romana, que se tornando a ‘rosa sem espinhos’ simboliza Maria, preservada das conseqüências do pecado original.

Referência: The National Gallery, Londres

Pesquisa: Marcia Bonnet.

Representações da Imaculada concepção

Atualmente a iconografia mais associada à Imaculada Concepção é aquela tão bem divulgada pela pintura produzida no Siglo de Oro espanhol. Zurbarán, Murillo e, sobretudo, Pacheco, nos deixaram representações que mostram uma jovem de cabelos anelados suspensa no ar, de mãos postas e manto esvoaçante, pisando sobre uma esfera e/ou um crescente lunar, uma serpente e uma nuvem salpicada de querubins.

À esquerda, Francisco de Pacheco (1554-1644), A Imaculada Conceição com o Poeta Miguel del Cid, c. 1616-7, Catedral de Sevilha, Andaluzia e à direita, Francisco de Zurbarán (1598-1664), Imaculada Conceição, 1634, Museu Cerralbo, Madri. Imagens da Web Gallery of Art.

As primeiras representações da Imaculada, entretanto, estavam bem distantes desta fórmula que acabou por se popularizar. Na passagem entre a Idade Média e o Renascimento encontramos algumas representações da concepção de Maria e as soluções encontradas pelos artistas variaram bastante. Giotto, por exemplo, na série Cenas da Vida de Joaquim, que decora parte da Capela Scrovegni em Pádua, mostrou o Encontro na Porta Dourada (1304-06), onde vemos Joaquim e Ana trocando um beijo bastante fraternal diante da porta dourada.

Giotto, Cenas da Vida de Joaquim: Encontro na Porta Dourada,1304-06, afresco da Capela Scrovegni Pádua. Imagem da Web Gallery of Art
Jean Bellegambe, pintor flamengo que viveu na França, encontrou outra maneira para representar a concepção, mostrando Maria dentro do ventre de Ana.

À esquerda, Jean Bellegambe (1470-1534), Santana concebendo a Virgem Maria, Museu de la Chartreuse, Douai e à direita, Carlo Crivelli, A Imaculada Conceição, 1492, Galeria Nacional de Londres.
Todas as referências históricas e pesquisas são de Marcia bonnet

A história da concepção de Maria

A história da concepção e da infância da Virgem Maria faz parte dos chamados Evangelhos da Infância: proto-evangelho de Tiago – escrito entre 140-170 d.C., versão mais antiga conhecida do séc. III – e o de Pseudo-Mateus – séc. IV ou V – ambos os livros apócrifos.
Neles encontramos narrativas que descrevem as circunstâncias envolvendo a concepção e nascimento da Virgem.
Imagem de Giotto di Bondone, Cenas da Vida de Joaquim: Anunciação à Santa Ana, 1304-06, afresco, Capela Scrovegni Pádua. Imagem da Web Gallery of Art – ver datalhes de outras imagens – efetuar busca por Giotto – ver o conjunto de obras das cenas da vida de Joaquim.

Ana e Joaquim já estavam casados há cerca de vinte anos sem que conseguissem ter filhos, o que entre os judeus da época era visto quase como uma maldição. Certa feita, Joaquim teve sua oferenda recusada no templo, já que, por não ter filhos, ele não parecia estar nas boas graças do Senhor. Decepcionado e sentindo que aquela era ainda mais uma punição do Senhor, Joaquim decidiu se retirar para as montanhas com seu rebanho, abandonando Ana. Isto segundo Pseudo-Mateus. De acordo com o Evangelho de São Tiago, Joaquim teria se recolhido em retiro, jejuando e se abstendo da companhia da mulher.

Ana que já não tinha filhos, se viu também abandonada pelo marido e resolveu orar, pedindo ajuda ao Senhor. Em resposta às suas preces, apareceu um anjo do Senhor que a tranqüilizou, avisando que suas preces tinham sido ouvidas e que em breve seu marido retornaria e eles teriam o tão esperado filho. O mesmo anjo apareceu a Joaquim na montanha, para onde ele havia se retirado com seu rebanho, instruindo-o a voltar para casa por que Ana, sua mulher, havia concebido o filho que tanto desejava.

Joaquim obedeceu prontamente e, ao encontrar com Ana, os dois teriam se abraçado e trocado um beijo no rosto – momento que foi, erroneamente, retratado como o instante em que se teria dado a concepção de Maria. Segundo ambos evangelhos, portanto, a semente que gerou Maria, no ventre de Ana foi plantada pelo Senhor.

O Catecismo da Igreja Católica, assim se expressa:
“Ao longo dos séculos, a Igreja tomou consciência de que
Maria, ‘cumulada de graça’ por Deus, foi redimida desde a
concepção. É isso que confessa o dogma da Imaculada
Conceição, proclamado em 1854 pelo Papa Pio IX”

 

Existem outras teorias e doutrinas sobre a concepção de Maria e uma das principais delas é de São Tomaz de Aquino Leia o documento em formato PDF.

 

Texto original: Márcia Bonnet –Univ.Federal do Rio Grande do Sul.

Ver online alguns livros apócrifos: gnosis.org, earlychristianwritings.com, ccel.org e metareligion.org.